E o pulso ainda pulsa...
A FALTA DA VELHA PERUA
Foi uma luta controlar o diabetes desde os dezesseis anos de idade. Todo dia, quatro espetadas no dedo para o teste de glicemia de dona Gilda. De manhã, após o almoço, jantar, e pouco antes de dormir. Para doer menos, as injeções de insulina, aplicadas de manhã, à tarde e à noite, são feitas na coxa. Quando perde o controle, sua frio, sente tontura e os pais, já velhinhos, correm com ela para o hospital. Tudo isso já tem trinta e um anos. Há oito, a insistência do diabetes venceu os rins. Sem funcionar, Dona Gilda não urina mais há tempos. Pode tomar no máximo, meio copo americano de água por dia. Às segundas, quartas e sextas, acorda às 3h30, pega o ônibus e vai para a cidade vizinha fazer hemodiálise. É na perua da Prefeitura que fez as mais importantes amizades da vida. Dona Renilda tem o mesmo problema, e faz o mesmo percurso nos mesmos dias. Com dramas e rotinas tão parecidas, descobriram também que são primas de terceiro grau. Já Dolores, a gorda mal-humorada, ocupa dois lugares da perua. Só reclama do início ao fim do percurso, mas ao contrário do que pretendia, sua rabujice só diverte as demais companheiras de sofrimento. Na cadeira da hemodiálise, cada uma faz o que mais lhe agrada. Dona Gilda assiste os primeiros telejornais da manhã enquanto o rim mecânico filtra seu sangue. Dona Renilda fica por dentro de tudo que vai acontecer nas novelas com a revistinha que sempre rouba na recepção e leva lá pra dentro. Dolores prefere ficar falando mal da prefeitura, que não troca a velha perua, cheia de nheco-nhecos, há nove anos no percurso. Mas todas têm algo em comum: dormem na cadeira, depois de uma hora, no máximo.
-Apesar do sofrimento, é aqui que eu vivo de verdade! Antes eu não tinha amigas, hoje, tenho verdadeiras irmãs – comenta dona Gilda, com o sorriso desfalcado dos molares.
Ela sempre resistiu ao transplante. Tinha medo de trocar pâncreas e rins ao mesmo tempo.
-- Deve ser um cortão... – imagina ela.
Mas um dia, de tanto falar, a irmã a convenceu a aceitar. Veio a internação, a cirurgia, o período de recuperação. Dona Renilda foi visitá-la, e nem deixou que ela percebesse a pontinha de inveja que sentiu da prima que finalmente se livraria da hemodiálise. Dolores não foi, mas telefonou para desejar uma boa recuperação.
O tempo passou, o corte cicatrizou, mas a vida de Dona Gilda nunca mais voltou a ser normal. Não que ela não tenha se livrado das viagens e do rim mecânico, pelo contrário. Agora ela podia comer doces à vontade, beber litros e litros de suco de carambola, seu preferido.
Mas ela cada vez menos via as amigas. Certa vez fingiu sentir-se muito mal só para tentar pegar a perua da hemodiálise, mas uma nova paciente já ocupava seu banco. Ela foi entristecendo a cada dia, e para compensar a carência comia cada vez mais. Em seis meses, já havia engordado vinte quilos.
Em uma manhã, a mãe foi chamá-la no quarto, já depois das 11 horas, algo incomum pra quem sempre pulava da cama antes das sete. Mas dona Gilda mal conseguia se mover. Faltava-lhe o ar, os olhos estavam esbugalhados. Foi um corre-corre atrás de socorro. Quando chegou ao hospital, o médico mal teve tempo de constatar qual era o problema. Infarto. O problema era o excesso de comida, a gordura, a falta de exercícios, mas principalmente a falta de das viagens com as amigas. O novo pâncreas produz insulina, mas não produz amizade . O rim que chegou não filtrou a tristeza da falta da rotina de sofrimento. Quando as marcas da agulha da hemodiálise finalmente sumiram do braço dela, o coração parou de bater.
Observado por Marcelo Silva
em
15/08/2008
21:21
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Ouço vozes?
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Depois de oito dobras consecutivas, finalmente um expediente normal. E Barretos já está chegando. Estou só o pó da rabiola, morto, moído. Meu reino por uma cama!!!
A frequência aqui no blog não vem sendo diária. Pra falar a verdade, essa nem é a intenção. Pretendo vir aqui duas, três vezes por semana. Se não estiver dobrando, venho mais.
De modo que minha participação depende do humor do meu chefe!
Observado por Marcelo Silva
em
14/08/2008
16:43
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Ouço vozes?
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